Temos papa, temos
pai
Lya
Luft
27
de Março, 2013
Revista
Veja
Pode parecer supérfluo escrever sobre o assunto que
domina a imprensa com análises acuradas, frases entusiasmadas, comentários
escrachados, enfim, toda a humana coisa. Porque nós somos assim. Eu, que não
sou muito praticante, mas acho religião, religiosidade, alguma espiritualidade
fundamentais, estou encantada com esse Francisco.
Primeiro, pela modéstia e pobreza. “Ah, como quero
uma Igreja pobre, como quero uma Igreja para os pobres!" foi uma de suas
exclamações, nesse tom de vovozinho — mas que ninguém se iluda, ali existe uma
alma terna e férrea, como precisamos todos nós na figura de um pai, e ele é o
pai. Recusou as vestes douradas e luxuosas, achou que seu apartamento
acomodaria 300 pessoas, assombra os responsáveis por sua segurança e os
encarregados de medievais formalidades, usa sapatos pretos simples, crucifixo
de ferro no peito e se porta como uma pessoa: abraça pessoas, pede que rezem
por ele, dá boa-noite às multidões ou lhes deseja bom almoço, e a legião de
filhos se vê olhada, se sente gente.
Não sei comentar assuntos teológicos nem, na minha tranquila
existência, imagino a loucura que seja administrar a Cúria, o Vaticano, onde
seriedade e delírio, luxo, pompa e austeridade devem andar misturados, às vezes
mal misturados, há séculos. Mas sei o que uma pessoa deseja de um pai. Primeiro
exemplo. Não adianta delegar a educação dos filhos à escola, à psicóloga, à
pedagoga, aos amigos. A base de tudo, da personalidade, do futuro, esse chão
sobre o qual andaremos pelo resto da vida (tropeçando mais se for esburacado,
ou com mais chance de não quebrarmos tanto a cara e a alma se for mais sólido),
é a família, a casa paterna, são mãe e pai: o exemplo. "Ser exemplo, ah,
eu não quero isso, é muito chato", me diz um pai ainda moço. “Então não
posso fazer tudo o que quero, agora que sou adulto?” Sinto muito: é chato, é
inquietante, é limitador, mas se você tem filho, sobretudo pequeno ou
adolescente, você é responsável. Se quer ser sempre um gatão (uma gatinha), não
tenha filho; bem melhor para todos, para o mundo. Pois é a você, ao pai, que eles
vão tomar como modelo, ainda que você não queira. Pai mulherengo, pai festeiro
demais, pai que não se interessa, que não olha o tema (não é para fazer o tema
pelo filho), que não repreende quando é preciso, que não estimula bastante, não
abraça, não brinca, não joga bola, não procura saber dos amigos, não beija
antes de pegar no sono, pai que ignora ou, quando comenta, ironiza, paralisa,
pai autoritário demais, ou violento, pai que diz que não tem tempo... é o chão
frágil que nos vai fazer cair mais, escolher pior, respeitar menos quem somos.
Não falo só de filho homem. Esse meu “filho” é o agenérico, inclui as meninas,
assim como esse “pai” inclui a mãe.
O grande pai que é o chefe dessa Igreja de
incontáveis milhões de filhos, crentes ou meio desgarrados, é, antes de tudo, um
exemplo. Com sua vida, suas convicções, seu jeito de ser: bondoso, simples,
sim, mas não se iludam: vai ser, já começa a ser, um reformador, um orientador,
e para isso vai precisar estar alerta, e presente, e firme, e sábio, e humilde,
todos os dias de seu papado — que desejo longo. Porque estamos precisados de
acreditar que o mundo não é, sobretudo, caça ao prazer, ao poder, e
irresponsabilidade infantil, mas algo bem melhor que isso. Francisco.
Francesco, com o gostoso som italiano, escolheu como inspiração aquele de
Assis. Foi eleito para ser pai de um rebanho incontável e olha para, além disso,
dirigindo uma bênção aos não crentes, coisa rara até onde sei, uma bênção
legítima quase nunca usada. Ele vai deslumbrar o mundo, vai assustar, vai
castigar, vai fazer pisar em ovos, mudar de pouso ou de postura, adquirir
compostura, sair correndo, indignar-se, aplaudir, ter esperança. Só não vai ser
momo. E assim, eu aqui, a quem ele não conhece, cuja existência nem imagina,
lhe desejo força, sucesso, paciência (mas não muita), paz interior, iluminação.
Ele bem que vai precisar. E nós precisamos muito dele.

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