"Morreu como sempre viveu: pobre."
Vídeo gravado em Sacramento por Sacrahome.
Vídeo gravado no programa Tirando de Letra pela Universidade Nacional de Brasília (UNB).
Tese de Doutorado de Germana Henriques
Carolina Maria de Jesus
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| Arquivo pessoal de Audálio Dantas | ||
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O jornalista Audálio Dantas foi quem “descobriu” Carolina de Jesus
ao escrever uma matéria sobre a expansão da favela do Canindé que, em
meados dos anos 1960, foi desocupada para que fosse construída a
Marginal Tietê. Ao conversar com os moradores, o jornalista conheceu a
escritora que lhe mostrou, em seu barraco, uma coleção de cerca de 20
cadernos, recolhidos do lixo, nos quais ela registrava o seu cotidiano.
Dantas convenceu a editora Francisco Alves a publicar os diários de Carolina de Jesus sob o título Quarto de despejo,
referência ao modo como a escritora percebia a favela em oposição à
cidade: “Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de
visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludo, almofadas
de sitim. E quando estou na favela tenho a impressão que sou um objeto
fora de uso, digno de estar num quarto de despejo”.
(apud: BOM MEIHY, J.C. Sebe & LEVINE, Robert M. Cinderela negra. A saga de Carolina Maria de Jesus. Editora da UFRJ, 1994, p.173-174)
Quarto de despejo tornou-se um sucesso editorial, sendo traduzido em treze línguas e mais de quarenta países, vendendo cerca de um milhão de cópias em todo o mundo. Os registros diários de Carolina de Jesus iniciaram-se em 15 de julho de 1955, sendo interrompidos em 28 de julho do mesmo ano e retomados apenas em 2 de maio de 1958. O livro se encerra com um registro feito no dia 1.o. de janeiro de 1960. Mas nem o formato de diário nem a descontinuidade cronológica prejudicam a estrutura narrativa. Mesmo com dificuldades, a escritora ainda publicou, no Brasil, os livros Casa de alvenaria (1961), Provérbios (1963) e Pedaços da fome (1963) e >i>Diário de Bitita (publicação póstuma, 1982). O historiador José Carlos Sebe Bom Meihy, durante a sua pesquisa para o livro Cinderela negra: a saga de Carolina Maria de Jesus (escrito em parceria com o historiador norte-americano Robert Levine), localizou, junto à família da escritora, uma caixa com trinta e sete cadernos que trazem poemas, contos, quatro romances e três peças de teatro. Para o historiador, esse acervo revela que os diários que fizeram Carolina Maria de Jesus ficar famosa no mundo inteiro, não representam nem de leve a essência da obra da escritora: “estamos em face de um caso único na história da cultura popular nacional, onde, na favela, uma autora semi-analfabetizada produziu uma obra que, segundo o impulso inicialmente dado, seria uma promessa de renovação de nossos critérios de definição cultural”, afirma Bom Meihy ao lamentar o esquecimento de uma escritora com uma importância singular na história brasileira. Bitita Eu estava com sete anos e acompanhava a minha mãe por todos os lados. Eu tinha um medo de ficar sozinha. Como se estivesse alguma coisa escondida neste mundo para assustar-me. Eu ainda mamava. Quando senti vontade de mamar comecei a chorar. "Eu quero irme embora! Eu quero mamar! Eu quero irme embora!" A minha saudosa professora D.Lanita Salvina perguntou-me: "Então a senhora ainda mama?" "Eu gosto de mamar" As alunas sorriram. "Então a senhora não tem vergonha de mamar?" "Não tenho!" "A senhorita está ficando mocinha e tem que aprender a ler e escrever, e não vai ter tempo disponível para mamar, porque necessita preparar as lições. Eu gosto de ser obedecida! Estais ouvindo-me D. Carolina Maria de Jesus?" Fiquei furiosa e respondi com insolência. "O meu nome é Bitita. Não quero que troque o meu nome." "O teu nome é Carolina Maria de Jesus." Era a primeira vez que eu ouvia pronunciar o meu nome. Que tristeza que senti. Eu não quero este nome, vou trocá-lo por outro. A professora deu-me umas reguadas nas pernas, parei de chorar. Quando cheguei na minha casa tive nojo de mamar na minha mãe. Compreendi que eu ainda mamava porque era ignorante, ingênua e a escola esclareceu-me um pouco. Minha mãe sorria dizendo: "Graças a Deus! Eu lutei para desmamar esta cadela e não consegui. A minha mãe foi beneficiada no meu primeiro dia de aula. Minha tia Oluandimira dizia: "É porque você é boba e deixa esta negrinha te dominar." Para saber mais: Carlos Vogt, “Trabalho, pobreza e trabalho intelectual”, ComCiência, Edição Violência - Faces e Máscaras, n.o. 26, novembro de 2001. - http://www.comciencia.br/reportagens/violencia/vio12.htm José Carlos Sebe Bom Meihy, “Carolina Maria de Jesus: emblema do silêncio”, Revista USP, São Paulo, n.o. 37, 1998. | ||


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